segunda-feira, 17 de agosto de 2009

V – Albert Bach

A expressão no rosto de Peter era de impaciência. George, esse é Albert. Olhei para todos os lados e não vi nem sinal de movimento. Albert, o gasparzinho?! Pensei comigo e olhei para Peter como se esperasse uma resposta dele. Foi quando percebi uma mão fria apertando a minha e chacoalhando para cima e para baixo com rapidez. Parado em minha frente estava um vampiro de corpo esguio, olhos amarelos e dedos compridos. O cabelo bem preto, comprido e caído na testa. Albert Bach, Prazer senhor...e ficou esperando que eu completasse. Demorei a lembrar o nome que havia inventado, distraído demais tentando entender como ele chegou tão rápido até mim. Smith. Prazer senhor Smith, vejo que já se alimentou do rebanho de Peter, disse ele, olhando para meu rosto como se pudesse ver, através das bochechas, a minha sede satisfeita. Olhei para Peter sem saber o que dizer e ele respondeu por mim. O senhor Smith me seguia pela rua e não pude deixar de notar que estava faminto. Albert soltou um grunhido baixo e se afastou para que pudesse me fitar de cima a baixo. Então olhou nos meus olhos que denunciavam misto de surpresa e incerteza e sorriu de leve com um só canto da boca, tombando um pouco a cabeça para um lado. Tudo ocorreu muito rápido. Graças à agilidade dele e à minha, em menos de dois segundos ele havia pulado para bem perto de mim e estava agora agachado com os dois joelhos bem dobrados, um mais acima do outro. Duas das minhas armas de fogo, uma em cada mão haviam sido sacadas da cintura, dentro da capa e eu agora apontava para Albert e para Peter. Os dois olharam espantados, talvez não estivessem esperando muito de mim, Albert sorriu animado e olhou para Peter. Porque não dorme por aqui esta noite? Temos muito para conversar e já está claro demais para que vá embora. Hum, como saberei se devo confiar em você? Perguntei, com as armas ainda mirando suas cabeças, de longe a de Peter e quase encostada na de Albert. Nessa hora Peter também havia se animado com toda a ação, e foi ele quem respondeu. Confiei o melhor do meu rebanho a você, George, entre e mais tarde poderei te explicar exatamente quem é o senhor Bach. Ele abriu mais a porta e se virou de lado, num sinal para entrarmos. Vamos! Olhei para o céu e calculei que seria impossível chegar em casa antes que o sol brilhasse. Baixei as miras e guardei as armas, ajeitando melhor para o caso de ter que usá-las mais tarde. Novamente lá estava a grande sala, a lareira e a bela jovem que tanto me agradava aos olhos e ao sabor.Lá em cima, chegamos a um quarto parecido com o de antes, cheio de livros e com mais poltronas do que a outra. Cortinas grossas, bem pesadas e de um vermelho escuro impediam que a luz do sol entrasse. Sentei e esperei que dissessem algo. Pois bem George, como pode ver Albert mora comigo, mas você deve estar se perguntando porque a cara de impaciência que fiz quando ele chegou não é mesmo? Nessa hora Albert olhou surpreso e um pouco bravo para Peter, sentado na poltrona ao seu lado. Quando estávamos lá fora e ouvimos a voz dele, soube que ele me encheria de perguntas sobre você e suas habilidades, mas felizmente, dessa vez ele estava certo! Eles sorriram animados, apesar do meu silêncio, era eu quem dominava a conversa agora. Permita-me explicar melhor, disse Albert. Tenho um trabalho a fazer em Londres e estou a procura de alguém bom o suficiente para me acompanhar. Londres? Talvez não seja uma boa idéia ter a minha companhia em Londres, respondi sério. Os sorrisos haviam sumido e Albert e Peter trocaram um olhar preocupado. Tem certeza de que seu nome é George Smith?

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Trechos

"Desmaterializando a obra de arte no fim do milênio/Faço um quadro com moléculas de hidrogênio/Fios de pentelho de um velho armênio/Cuspe de mosca, pão dormido, asa de barata torta/Desmaterializando a matéria/Com a arte pulsando na artéria/Boto fogo no gelo da Sibéria/Faço até cair neve em Teresina/Um barco sem porto,/Sem rumo,/Sem vela,/Cavalo sem sela,/Um bicho solto,/Um cão sem dono,/Um menino,/Um bandido,/Às vezes me preservo noutras suicido./Ando tão à flor da pele,/Que a minha pele tem o fogo do juízo final./com trombetas distorcidas e harpas envenenadas/Eu quero ser exorcizado/Pela água benta/Desse olhar infindo/Que bom é ser fotografado/Mas pelas retinas/Dos seus olhos lindos/Me deixe hipnotizado/Pra acabar de vez/Com essa disritmia/Ninguém vê onde chegamos/Os assassinos estão livres/Nós não estamos/Quem me dera, ao menos uma vez,/Provar que quem tem mais do que precisa ter/Quase sempre se convence que não tem o bastante/E fala demais por não ter nada a dizer/Eu não quero ver você fumando ópio pra sarar a dor/Eu não quero ver você chorar veneno/Não quero beber o teu café pequeno/Eu não quero isso, seja lá o que isso for/Não quero medir a altura do tombo/Nem passar agosto esperando setembro/Se bem me lembro/O melhor futuro, este hoje escuro/O maior desejo da boca é o beijo/Eu não quero ter o Tejo me escorrendo das mãos/Quero a Guanabara, quero o rio Nilo,/Senhoras e senhores estamos aqui /Pedindo uma ajuda por necessidade /Pois tenho irmão doente em casa /Qualquer trocadinho é bem recebido/poesia não tem dono/alegria não tem grife/quando eu tiver cacife/vou-me embora pro recife/que lá tem um sol maneiro/quando eu nasci era um dia amarelo/já fui pedindo chinelo/rede café caramelo/o meu pai cuspiu farelo/minha mãe quis enjoar/meu pai falou mais um bezerro desmamido/meu deus que será bandido/soldado doido varrido/milionário desvalido/padre ou cantor popular/Você é a ovelha negra da família/Agora é hora de você assumir e sumir/O palhaço ri dali, o povo chora daqui, e o show não pára/E apesar dos pesares do mundo/Vou segurar essa barra/Bondade sua me explicar com tanta determinação/Exatamente o que eu sinto, como penso e como sou/Eu realmente não sabia que eu pensava assim/A ponte que liga, o pensamento que explica/Do ponto que parte do apartamento vizinho/Do ponto de vista do entendimento da vida./Interrogação, interroga./Tá fazendo o que em casa?/Por acaso está doente?/Ver tv é deprimente/Não tem nada mais sem graça/A casa da cumadre Joana ficava bem aqui/Seus filhos barrigudos brincavam tentando se divertir/Mas a necessidade diária cortava mais que o sol/E a transação da muamba, meu velho, caiu na mão do menor/Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade,/Tudo está perdido mas existem possibilidades,/Tínhamos a idéia mas você mudou os planos/Tínhamos um plano, você mudou de idéia/Dentro da veia corre sangue viciado em adrenalina/Necessidade que não cessa nem tomando anfetamina/Espero que fique bem claro o que vamos lhe dizer/A vida não se resume a trabalhar e ver tevê/Olhar os filhos no espelho ver o crescer da pança/Achando que diversão é coisa feita pra criança/É claro que a vida lhe traz responsabilidades/Mas não rotule de velhice o que é maturidade."

Pensando em ouvir algumas da musicas que gosto, imaginei que seria interessante e valeria a pena juntar trechos de composições, geniais em minha opinião, variadas e aleatórias. O post inteiro pode ser considerado o "sugiro" de hoje, então, segue abaixo os nomes das músicas e seus cantores/compositores em ordem respectiva:

Bienal - Zeca Baleiro
A Flor da Pele - Zeca Baleiro
Heavy Metal do Senhor - Zeca Baleiro
Disritmia - Zeca Baleiro
Teatro dos Vampiros - Legião Urbana
Índios - Legião Urbana
Bandeira - Zeca Baleiro
Uma ajuda - O Rappa
Vô Imbolá - Zeca Baleiro
Ovelha Negra - Rita Lee
Jardins da Babilônia - Rita Lee
Mais do Mesmo - Legião Urbana
Interrogação - Tianastácia
Bom é quando faz mal - Matanza
Favela - Tianastácia
Sereníssima - Legião Urbana
Seu Caminho - Tianastácia

Sem dúvida existem muitas outras composições maravilhosas que não estão aqui, mas nada me impede de homenagea-las em outro post, não é mesmo!
Fica aí a dica então!
;D

terça-feira, 4 de agosto de 2009

IV – A Cidade Solitária


Você parece cansado George, está difícil conseguir sangue em Seattle? Difícil? Não se encontram mais tantos velhos sozinhos andando por aí; pelo menos não humanos. Ele sorriu. Quando cheguei aqui não havia tantos vampiros, conclui. Ele confirmou e disse que a cidade estava realmente ficando cheia nos últimos anos. Depois de mais alguns segundos de silêncio, chegamos a um belo sobrado dos anos 20, numa rua larga e bem iluminada da parte Norte da cidade. Não muito grande, mas com o espaço muito bem aproveitado. No primeiro piso havia uma ampla sala com uma lareira de centro que abrigava homens e mulheres jovens e belos. Finalmente o banquete que eu esperava! Ele deixou que eu escolhesse primeiro e ficou admirando enquanto eu me saciava. A primeira, uma mulher de aproximadamente 26 anos, cabelos bem negros, volumosos e com a parte da frente presa no topo da cabeça. Usava um vestido longo, daqueles antigos do século XIX e que, com certeza, abrigava por baixo um espartilho bem apertado. Não havia nada que pudesse ser melhor ou mais sedutor para mim naquele momento. Ela estava parada num canto perto da lareira, despreocupada, e me lançou um olhar aterrorizantemente seguro, acompanhado de um sorriso quase invisível, quando eu entrei e mais ainda quando me aproximei. Ela sabia que seria ela a escolhida e também deu um passo em minha direção. As mãos encaixavam perfeitamente na nuca, entre os cabelos grossos e espessos, tombavam a cabeça para trás, com firmeza, porém com muita naturalidade. O cheiro era a melhor coisa que eu já havia sentido até então, incomparável. Ela parecia gostar daquilo tanto quanto eu, como se desfrutasse do prazer de tomar um banho quente no inverno e deixasse a água descer de seu pescoço para todo o corpo, jogando a cabeça para trás. Eu podia ver o sangue dela pulsando por trás da pele, desejando ser sugado e após alguns segundos hipnotizado com aquela imagem, passei os dedos pelo pescoço para sentir aquela pele, e enfim me alimentei. Peter teve que me interromper para que eu não a matasse, tirando todo o sangue. Nos minutos seguintes ainda me sentia atordoado, hipnotizado. Depois Peter também escolheu uma bela jovem ruiva apenas para me acompanhar. Não parecia ter fome e parou logo, ansioso para alguma outra coisa que eu deveria temer, mas estava ocupado demais para me preocupar com qualquer outra “bobagem” naquele momento. No piso superior, alguns quartos, um banheiro e uma outra sala repleta de livros e principalmente de discos. Uma vitrola velha parecia abandonada num canto, mas já acolhia um dos discos que Peter logo pôs a tocar. Convidou-me a sentar numa das poltronas dessa sala, muito confortável por sinal. Então sentou-se na outra, de costas para a estante de livros. Há quanto tempo está em Seattle, George? Quase 32 anos, e você? Muito mais do que você, imagine só quão vazia de vampiros e até de humanos a cidade era antes, há pouco mais de noventa anos! Espantei-me com o número que saiu da boca dele e fiquei curioso pra saber há quantos anos ele havia sido abraçado, mas não ousei perguntar, não havia dúvidas para ele e muito menos para mim de que era ele quem estava conduzindo aquela conversa. Em alguns momentos cheguei a me sentir como numa entrevista, no entanto, Peter fez de tudo para manter o clima confortável da conversa. Conte-me George, você está solitário apenas agora ou sempre foi assim? Eu fechei as sobrancelhas, num sinal de que não havia entendido a pergunta. Você nunca ouviu nenhuma das histórias de Seattle? A cidade é conhecida por nós por abrigar muitos vampiros solitários, a maioria independente. Ele me explicou como havia conhecido a reputação da cidade, por meio de um amigo mais novo. Nunca havia ouvido falar dessa fama, Peter, e você, é um dos solitários? Estou sempre cercado de gente! Humanos, vampiros e amantes da gaita, entretanto, você tanto quanto eu deve entender que a solidão é real até para os que não a percebem. Nós, de Seattle, só a vemos de forma diferente. Eu concordei com tudo que ele havia dito e confirmei com a cabeça. Sendo assim, só a percebi há 32 anos. Olhei o céu pela janela e pensei naquela mulher lá embaixo, sedutora e confiante. Vejo que a manhã se aproxima, Peter, e devo ir para casa antes que o sol apareça. Claro. Descemos e ele me levou até a porta. Agradeci pela boa conversa, pelo ótimo alimento e pedi desculpas por não ter me controlado e quase ter matado uma das mulheres do rebanho. Imagine! Você até que foi bem educado para alguém faminto. Além disso, se já se alimentou de meu rebanho, acho que já pode me chamar de Pete. É como todos me conhecem por aqui. Na verdade, eu teria dito agora para me chamar de Peter se antes tivesse me chamado pelo sobrenome, mas já que você se adiantou. Naquele momento, meu rosto teria ficado vermelho de vergonha, mas com certeza o meu sorriso sem graça cumpriu muito melhor o papel de demonstrar-me encabulado, então preferi fazer brincadeira. Então nos vemos por Seattle, sr. Pete! Nós rimos juntos e eu já havia virado de costas, quando ouvimos uma voz que vinha de longe. Tem um amigo novo, Pete? Não vai me apresentar? Virei de volta para trás e vi um olhar emburrado e sério de Peter. Fiquei ali parado, preocupado, esperando alguma palavra dele e reparei que o céu começava a ficar claro. Claro demais para o meu gosto.