quinta-feira, 15 de julho de 2010

A vida após a morte

Eu não fui abandonada pelos meus pais quando criança, nem morei num orfanato. Não tive uma doença degenerativa rara aos 8 anos de idade. Não tive parentes alcoólatras. Meus pais não viviam brigando e eu nunca fui vítima ou testemunha de violência doméstica. Sempre tive festas de aniversário e ganhei presentes no Natal. Nunca passei fome ou frio por necessidade financeira. Não tive muitos problemas para encontrar amigos. Sempre tive um colchão para dormir e nunca precisei dividi-lo com meus irmãos. Brinquei uma infância inteira. Estudei em colégios particulares na maior parte da minha vida escolar e tive boas notas. Não fui gorda demais nem magra demais, nem tinha um nariz estranho. Não sofri bullying. Me diverti muito, saí com meus amigos e fui a quase todas as excursões com a turma. Viajei com a família nas férias, revi tios e primos. Nunca tive problemas com namoros. Não estudei oito horas por dia para conseguir passar no vestibular. Conheci uma cidade nova, conheci pessoas novas. Não tive que dividir quarto e sempre tive TV e internet. Sempre visitei a cidade natal. Sempre tive uma vida muito boa. Foi então que, aos 18 anos, eu conheci a morte. Eu sempre soube de sua existência, é claro, mas ela sempre esteve distante e eu ainda não a havia conhecido. Depois que ela chegou, me fez pensar em todos os relacionamentos de uma vida, todos os sentimentos e pensamentos que guardamos quando deveríamos dizer, todas as palavras que gritamos quando deveríamos repensar. A morte me fez entender que a vida é breve, mas que o amor pode torna-la eterna. Depois dela eu dei mais importância às pessoas e me deixei transformar em sentimentos. Hoje tenho 19 anos e sinto, todos os dias, uma profunda saudade da melhor gargalhada e do melhor abraço amigo que alguém poderia receber, seguido da frase “Amo você magrela” em cada simples despedida.