quarta-feira, 29 de julho de 2009

II - Daniel


Vermelhos. Os olhos eram vermelhos, não amarelos. Quase tão exóticos quanto os azuis acinzentados. Imediatamente veio à minha cabeça a voz de meu grande amigo Daniel. Por pouco não são brancos! Dizia sobre os meus olhos sempre que me olhava de perto. Quase tão alvos quanto a pele do seu rosto, eu retrucava, num sorriso quase puro.
Daniel tinha, de longe, a pele mais pálida que eu já havia notado em um de nós. Apesar da muita experiência, tinha aparência nova, 22 anos no máximo. Era esperto e ligado como um lobo faminto. Comparação mal colocada, meu caro! Ele costumava dizer, com um sorriso largo no rosto, quando eu fazia piada lhe comparando a um lupino. Olhos rígidos e penetrantes, impossível definir uma cor para eles, me deixavam sem graça toda vez que me encaravam de perto. Os cabelos curtos, bem pretos e foscos. Um dos poucos que eu conheci que sentia tanto prazer em ser o que era e via diversão em cada caçada.
Aquele sacana não podia arranjar outra forma de me magoar mais que não fosse embarcar em outra de suas loucas aventuras?! Ah, como eu amava essas aventuras! Ainda me lembro de quando saíamos pela rua, famintos [na verdade, naquele tempo eu mal sabia o que era estar faminto] com uma só taça, procurando o mais puro sangue com o qual pudéssemos enche-la várias vezes. Tarefa difícil em uma madrugada fria de Liverpool, mas nada impossível para Daniel e eu.
Mais fresca ainda em minha memória é a noite em que o perdi. Há exatos 32 anos, estava em meu quarto quando chegou um carro, fazendo barulho, cantando pneu e com um som muito alto. Rock bem instrumentado, como ele sempre gostou. Ouvi os passos rápidos na escada e vi Daniel abrir a porta desesperadamente. Tentando não demonstrar o nervosismo, deu um sorriso e me olhou nos olhos. Vem comigo!
Subimos no carro e vi as coisas passando muito rápido pela janela. Ele dirigia com um braço bem esticado até o volante, a cabeça um pouco baixa, com os olhos focados na rua, como se observasse uma presa. Eu não podia parar de olhar pra ele, esperando uma resposta às milhões de perguntas que se passavam em minha mente, ou uma simples explicação. Nada. Tudo que consegui dele naquele momento foram pequenos sorrisos que tentavam me acalmar quando ele percebia o meu olhar e desviava os olhos atentos e rígidos até os meus.
Paramos em frente a entrada do aeroporto. Ele sentou meio de lado, se virando para mim. Daniel, o que está acontecendo? Eu nunca havia visto seu rosto tão sério. Ele não respondeu, começou a falar com pausas curtas, para que eu não tivesse tempo de pensar. Eu confio em você e sei que tem experiência suficiente para essa tarefa. No porta-luvas do carro tem um presente para você. Eu olhei para o porta-luvas e com uma das mãos ele trouxe meu rosto de volta ao dele. Sei que não gosta muito de Baumer, mas vá ao encontro dele assim que sair daqui. Fiz que sim com a cabeça depois de um olhar demorado dele procurando minha confirmação. Ele saberá o que fazer com o carro. Quem sabe você não acredita nele dessa vez, ahn? Ele sorriu para mim e eu continuei sério. Mas Daniel, para onde vai? O que está acontecendo? Ele pegou com as duas mãos o meu rosto inteiro e me olhou nos olhos. Não fiquei sem graça dessa vez. Não se preocupe comigo, apenas faça o que te pedi. Voltarei um dia, esteja aqui!Ele saiu do carro com pressa e deixou a porta aberta. Quando já estava perto da porta, voltou correndo e me jogou as chaves do carro. Tem um pequeno mapa no porta-luvas também. Você vai precisar dele!

3 comentários:

  1. nossa quanto misterio! o que vai acontecer? qual é o presente? o que tem o carro a ver com isso? para onde ele foi? vejam no proximo capitulo de ... sim eu sempre quis fala desse jeito. gostei da continuação misteriosa. ve se não para de escrever.
    até mais. obrigado pela visita volte sempre.

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  2. Mapa? Vixe a noite vai ser longa para ele...e vc me enganando no msn, falando que não tinha criatividade...shaaushau

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  3. Ahh..muito legal, fiquei preso do começo ao fim!! Não pare de escrever,muito bom!! E parabéns pelo blog.
    Não disse que iria visitá-lo? Pois bem, nunca duvide! Bjoos

    Will. s2

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