terça-feira, 4 de agosto de 2009

IV – A Cidade Solitária


Você parece cansado George, está difícil conseguir sangue em Seattle? Difícil? Não se encontram mais tantos velhos sozinhos andando por aí; pelo menos não humanos. Ele sorriu. Quando cheguei aqui não havia tantos vampiros, conclui. Ele confirmou e disse que a cidade estava realmente ficando cheia nos últimos anos. Depois de mais alguns segundos de silêncio, chegamos a um belo sobrado dos anos 20, numa rua larga e bem iluminada da parte Norte da cidade. Não muito grande, mas com o espaço muito bem aproveitado. No primeiro piso havia uma ampla sala com uma lareira de centro que abrigava homens e mulheres jovens e belos. Finalmente o banquete que eu esperava! Ele deixou que eu escolhesse primeiro e ficou admirando enquanto eu me saciava. A primeira, uma mulher de aproximadamente 26 anos, cabelos bem negros, volumosos e com a parte da frente presa no topo da cabeça. Usava um vestido longo, daqueles antigos do século XIX e que, com certeza, abrigava por baixo um espartilho bem apertado. Não havia nada que pudesse ser melhor ou mais sedutor para mim naquele momento. Ela estava parada num canto perto da lareira, despreocupada, e me lançou um olhar aterrorizantemente seguro, acompanhado de um sorriso quase invisível, quando eu entrei e mais ainda quando me aproximei. Ela sabia que seria ela a escolhida e também deu um passo em minha direção. As mãos encaixavam perfeitamente na nuca, entre os cabelos grossos e espessos, tombavam a cabeça para trás, com firmeza, porém com muita naturalidade. O cheiro era a melhor coisa que eu já havia sentido até então, incomparável. Ela parecia gostar daquilo tanto quanto eu, como se desfrutasse do prazer de tomar um banho quente no inverno e deixasse a água descer de seu pescoço para todo o corpo, jogando a cabeça para trás. Eu podia ver o sangue dela pulsando por trás da pele, desejando ser sugado e após alguns segundos hipnotizado com aquela imagem, passei os dedos pelo pescoço para sentir aquela pele, e enfim me alimentei. Peter teve que me interromper para que eu não a matasse, tirando todo o sangue. Nos minutos seguintes ainda me sentia atordoado, hipnotizado. Depois Peter também escolheu uma bela jovem ruiva apenas para me acompanhar. Não parecia ter fome e parou logo, ansioso para alguma outra coisa que eu deveria temer, mas estava ocupado demais para me preocupar com qualquer outra “bobagem” naquele momento. No piso superior, alguns quartos, um banheiro e uma outra sala repleta de livros e principalmente de discos. Uma vitrola velha parecia abandonada num canto, mas já acolhia um dos discos que Peter logo pôs a tocar. Convidou-me a sentar numa das poltronas dessa sala, muito confortável por sinal. Então sentou-se na outra, de costas para a estante de livros. Há quanto tempo está em Seattle, George? Quase 32 anos, e você? Muito mais do que você, imagine só quão vazia de vampiros e até de humanos a cidade era antes, há pouco mais de noventa anos! Espantei-me com o número que saiu da boca dele e fiquei curioso pra saber há quantos anos ele havia sido abraçado, mas não ousei perguntar, não havia dúvidas para ele e muito menos para mim de que era ele quem estava conduzindo aquela conversa. Em alguns momentos cheguei a me sentir como numa entrevista, no entanto, Peter fez de tudo para manter o clima confortável da conversa. Conte-me George, você está solitário apenas agora ou sempre foi assim? Eu fechei as sobrancelhas, num sinal de que não havia entendido a pergunta. Você nunca ouviu nenhuma das histórias de Seattle? A cidade é conhecida por nós por abrigar muitos vampiros solitários, a maioria independente. Ele me explicou como havia conhecido a reputação da cidade, por meio de um amigo mais novo. Nunca havia ouvido falar dessa fama, Peter, e você, é um dos solitários? Estou sempre cercado de gente! Humanos, vampiros e amantes da gaita, entretanto, você tanto quanto eu deve entender que a solidão é real até para os que não a percebem. Nós, de Seattle, só a vemos de forma diferente. Eu concordei com tudo que ele havia dito e confirmei com a cabeça. Sendo assim, só a percebi há 32 anos. Olhei o céu pela janela e pensei naquela mulher lá embaixo, sedutora e confiante. Vejo que a manhã se aproxima, Peter, e devo ir para casa antes que o sol apareça. Claro. Descemos e ele me levou até a porta. Agradeci pela boa conversa, pelo ótimo alimento e pedi desculpas por não ter me controlado e quase ter matado uma das mulheres do rebanho. Imagine! Você até que foi bem educado para alguém faminto. Além disso, se já se alimentou de meu rebanho, acho que já pode me chamar de Pete. É como todos me conhecem por aqui. Na verdade, eu teria dito agora para me chamar de Peter se antes tivesse me chamado pelo sobrenome, mas já que você se adiantou. Naquele momento, meu rosto teria ficado vermelho de vergonha, mas com certeza o meu sorriso sem graça cumpriu muito melhor o papel de demonstrar-me encabulado, então preferi fazer brincadeira. Então nos vemos por Seattle, sr. Pete! Nós rimos juntos e eu já havia virado de costas, quando ouvimos uma voz que vinha de longe. Tem um amigo novo, Pete? Não vai me apresentar? Virei de volta para trás e vi um olhar emburrado e sério de Peter. Fiquei ali parado, preocupado, esperando alguma palavra dele e reparei que o céu começava a ficar claro. Claro demais para o meu gosto.

7 comentários:

  1. Curti, é algo tão dark imaginar uma cidade cheia de seres que estão pouco se ferrando pra você, só querem seu sangue....

    Muito bom, parabéns...

    Beijos

    http://candrevasblog.blogspot.com/

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  2. Essa última parte foi muito legal!!
    Parabéns..não conhecia este seu lado de "contadora de contos"!!

    Você está me surpreendendo!!

    Bjos

    Se cuidaaa!!

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  3. O que eu gosto de seus contos é a riqueza de detalhes, como no cabelo da moça, caramba, consegui enxergar perfeitamente ela O.o!

    http://candrevasblog.blogspot.com/

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Brigada Carlos =D...comentário de um amigo após a leitura da quarta parte: "bem safadinho..ahauhauha"
    ¬¬'

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  6. ¬¬', affs...mas relaxa, comentários de toda natureza sempre chegam: o padrão (ficou ótimo, belezura, etc), o contextualizado, o zuado...etc e tal...suhaushuahshua

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  7. essa na minha opnião foi a melhor parte da historia, otima descrição dos personagens. aguardo anciosamente a 5° parte.
    se der tempo visita meu blog
    http://infortunio-dark.blogspot.com/ até agora ta muito sem ação apenas explicações. prometo mais ação na 4° parte.

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